
Desde a primeira vez que assisti a um episódio de Black Mirror (que realmente eu não me lembro qual foi), achei essa uma das melhores séries de todos os tempos. Embora não seja uma “série” no sentido de ter uma sequência entre os episódios, o futuro distópico é realmente um tema fascinante, ao menos para mim. Tirando um ou dois episódios, achei todos até hoje excelentes, por nos fazer pensar a respeito de tecnologias e comportamentos que podemos ter no futuro (e alguns já estão presentes mesmo hoje). Como sou aficionado por tecnologia desde sempre, para mim é realmente um prato cheio. Geralmente são bastante tensos, e com revelações incríveis ao longo dos episódios, que são em geral curtos e densos o bastante para prender muito a atenção.
O quinto episódio da terceira temporada é um dos que mais me chamou a atenção. O título original em inglês é “Men against fire”, que seria algo como “Homens que são contra atirar” (depois descobri que é o título de um livro de um militar americano, vou comentar mais abaixo), mas a Netflix colocou o título em português como “Engenharia reversa”. Vou tentar separar o post em duas partes, onde na primeira não vou contar nada que estrague a experiência de quem se anime a assistir. Na segunda, já coloco um alerta de spoiler para proteger os incautos, rs
1a parte: Caça às “baratas”
No início é mostrado um soldado iniciante juntando-se a um batalhão, saindo para uma missão em uma vila que havia sido atacada por “baratas” (“roaches”, em inglês). Percebemos que essas tais baratas não são os insetos, mas alguns seres que atacam vilas, roubam comida, fogem… os moradores da vila ficam revoltados, e inclusive queimam a comida que foi deixada, por estar “infectada”. Uma integrante do batalhão chega a dizer que as baratas precisam ser exterminadas, porque transmitem doenças, são sujas, eles não podem deixar que elas procriem, senão vão infestar o mundo inteiro.
Quando finalmente um grupo das baratas é encontrado, nós vemos que são seres quase humanos, mas deformados, que emitem grunhidos ao invés de falar, escondem-se dos soldados e fogem quando encontrados. Via de regra, os soldados os matam sem pestanejar. Nessa parte já fica claro que há uma guerra, uma missão de encontrar e exterminar esses seres que são chamados de baratas, e os soldados são treinados para essa missão específica. Não fica claro de onde vieram, como surgiram, mas a mensagem é clara: a humanidade precisa ser protegida dessa praga que são as baratas, e os soldados têm a honra de cumprir essa missão.
*** Atenção! Alerta de spoiler, só leia abaixo se já assistiu ao episódio, ou se não vai assistir ***
2a parte: Quem são as “baratas”?
Aqui a coisa começa a ficar realmente interessante. Os soldados possuem equipamentos implantados que permitem que eles enviem e recebam mensagens e imagens entre si, enxerguem em tempo real exatamente o que a câmera de um drone está filmando, coisas assim. O soldado iniciante, chamado de Stripe, depois do primeiro contato com algumas baratas, começa a ter alguns problemas com esse seu equipamento implantado, que chamam de “máscara”. Eles fazem alguns exames, mas não acham nada de errado e ele volta à campo para uma nova missão. Aí na missão percebemos a grande jogada da estória: a tal “máscara” implantada no cérebro dos soldados faz com que eles enxerguem determinadas pessoas como as tais baratas. Isso mesmo, as tais baratas eram pessoas, seres humanos normais, o tempo todo, mas os soldados tinham o cérebro “programado” para enxergá-los como seres diferentes, repugnantes, praticamente animais.
Aí podem vir as perguntas: Por que esse grupo de seres humanos vivia se escondendo, roubava comida de outras vilas e eram perseguidos? Simplesmente porque eram perseguidos e segregados, por serem de uma determinada raça ou etnia (não fica claro) diferente daquela “dominante”. Eles foram identificados geneticamente, pelo seu DNA, como um tipo de raça “inferior”, com maior tendência a doenças e outros “problemas”, e alguém tomou a decisão de segregá-los, persegui-los, e, ao longo do tempo, caçá-los e exterminá-los. A tecnologia havia dado acesso a ferramentas que permitiam, em tempo real, segregar essas pessoas, e ainda fazer com que soldados enxergassem neles verdadeiros monstros, para que fosse simples, quase natural, que as matassem. Os soldados que se alistavam voluntariamente concordavam em ter o implante da “máscara” e ter sua memória recente apagada para que não se lembrassem, e achassem natural irem caçar as baratas. Ao perceber isso, o soldado entra em desespero e com uma angústia que é obviamente compartilhada com o espectador.
No exato momento em que o mecanismo todo, e sua justificativa, são percebidos, é impossível – ao menos para mim – não fazer um paralelo com perseguições e segregações que ocorrem na vida real, seja de ordem étnica, religiosa, social, ou qualquer outra. A mais óbvia é a ideia da eugenia, da “raça pura” usada por Hitler para justificar as perseguições na Alemanha nazista, mas existem muitas outras que existiram ao longo da História, e algumas permanecem até hoje. Tornar o “diferente” como “inimigo”, desumanizá-lo ao ponto de que capturá-los, torturá-los, matá-los torna-se normal. Romanos perseguindo povos diferentes, chamados por eles de “bárbaros”, cristãos justificando matar muçulmanos, os “infiéis” nas Cruzadas, a Inquisição Católica queimando os chamados “hereges”, “bruxos”, por não compartilharem de suas fés e dogmas, judeus e árabes disputando territórios e criando abismos entre povos e culturas que poderiam ser tão próximos, brigas entre etnias na África ainda nos tempos de hoje (aliás, se não viu o filme “Hotel Ruanda”, recomendo, mostra um recorte a respeito, numa estória real). Não temos a tecnologia das “máscaras” para transformar os diferentes em monstros, mas temos outros mecanismos, lavagem cerebral, propaganda e comunicação massiva, dentre outros. Como na maioria dos episódios de Black Mirror, fica uma sensação ruim, um gosto amargo na boca, uma mistura de “vontade de que aquele futuro distópico nunca chegue” com “ele já está aqui ao meu lado há tempos”…
Mais recentemente descobri que o título do episódio “Men against fire” é o mesmo de um livro escrito por um militar americano do século XX, que trata justamente do “problema” que ocorria no front de batalha, com uma porcentagem muito grande de soldados que não conseguiam matar os inimigos. Erravam de propósito ou simplesmente não apertavam o gatilho. Esse “problema” teria sido resolvido ou minimizado de alguma forma com a “desumanização” do inimigo para os soldados, de maneira análoga ao vista no episódio de Black Mirror. Não li o livro, não sei como isso teria sido tratado, mas fiquei curioso, quem sabe algum dia procure saber mais a respeito.
Bom, espero que tenha achado interessante, até uma próxima!
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